A inovação que não cabe em um dashboard

Em junho de 2026, vivi uma experiência que mudou minha maneira de pensar sobre inovação e desenvolvimento. Representei o Brasil no International Visitor Leadership Program (IVLP), programa de intercâmbio e formação de lideranças do Departamento de Estado dos Estados Unidos, com o tema “Workforce and Business Development | Pathways for Youth”.

Baiano de origem e capixaba por trajetória, com uma história construída em Cariacica, embarquei com a expectativa de conhecer novas tecnologias e ferramentas digitais que pudessem contribuir para o desenvolvimento do Espírito Santo. Voltei com uma percepção diferente: a inovação que mais me chamou a atenção não estava nos sistemas ou na inteligência artificial, mas na maneira como as instituições trabalham para desenvolver pessoas e conectar diferentes setores.

Em Dallas, conheci o All Stars Project, organização que utiliza a performance e a improvisação teatral para preparar jovens para o mundo dos negócios. Por meio de atividades práticas, os participantes desenvolvem comunicação, oratória, contato visual e outras habilidades comportamentais. A experiência mostrou que a formação profissional vai além do domínio técnico. Saber interagir, construir relações e lidar com situações novas também é essencial.

Outra lição veio das visitas à Employ Milwaukee e à Southern Christian. As instituições demonstraram como dificuldades sociais podem comprometer o acesso à formação e ao trabalho. Um exemplo é o FlexRide, serviço de transporte subsidiado porta a porta. Afinal, não basta oferecer oportunidades se as pessoas não conseguem chegar até elas. A qualificação profissional também depende de condições que permitam aos jovens aproveitar essas oportunidades.

Essas experiências ampliaram minha percepção sobre a relação entre inclusão e produtividade. O debate sobre competitividade costuma destacar tecnologia, investimentos e eficiência. Mas uma economia também depende da capacidade de preparar pessoas, ampliar oportunidades e criar condições para que os talentos se desenvolvam.

No Mississippi, conheci uma iniciativa que me fez refletir sobre o papel das empresas nesse processo. A Build Mississippi apresentou o modelo Piggy Bank, voltado à formação profissional na construção civil. A proposta nasceu da articulação de empreiteiras que defenderam uma legislação estadual para instituir uma taxa anual de licenciamento para empresas que realizam obras comerciais. Metade dos recursos arrecadados é destinada a um fundo de formação profissional, recrutamento, divulgação e desenvolvimento de currículos para o setor.

O aspecto mais interessante é a busca por uma solução coletiva. Em vez de cada empresa enfrentar isoladamente a dificuldade de encontrar profissionais qualificados, o setor se organiza para contribuir com a formação de trabalhadores e aproximar o ensino das necessidades do mercado.

Essa experiência levanta uma questão para o Espírito Santo: como aproximar ainda mais empresas, instituições de ensino, poder público e organizações da sociedade civil? Em um Estado que também enfrenta desafios de qualificação profissional, o setor privado pode participar não apenas da contratação, mas da construção das condições para preparar os trabalhadores de que precisa.

Não se trata de importar modelos prontos. As realidades são diferentes, e cada iniciativa precisa considerar as características locais. Mas conhecer experiências internacionais amplia nosso repertório e ajuda a formular novas perguntas e possibilidades.

Foram 23 dias de imersão, mas o aprendizado não terminou no retorno ao Brasil. A experiência se tornou um ponto de partida para aprofundar estudos e pensar em soluções que possam ser adaptadas à realidade capixaba.

Voltei com uma convicção: preparar os jovens para o futuro exige também desenvolver certas habilidades, remover barreiras e construir oportunidades por meio da cooperação. Foi assim que passei a enxergar a inovação: não apenas nas ferramentas que utilizamos, mas principalmente na capacidade de conectar pessoas e instituições para transformar realidades.

 

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