Quanto mais avança a inteligência artificial, mais decisivo se torna o professor. É ele quem dá sentido ao que a máquina apenas informa, quem ensina a duvidar de uma resposta pronta, a contextualizar, a pensar com autonomia. Nenhuma tela substitui o adulto que decide o que vale a pena aprender e por quê. Se o educador é tão central, merece estar no centro do debate uma questão que quase nunca aparece: a da qualidade da formação de quem forma. A primeira Prova Nacional Docente, aplicada pelo INEP em outubro de 2025, jogou luz sobre ela, e o resultado preocupa.
Dos 759 mil professores que fizeram a prova no país, apenas 64,97% alcançaram o mínimo de proficiência exigido para a docência. Em outras palavras, mais de um em cada três ficou abaixo do nível necessário para ensinar. E passar não significa estar bem preparado, já que somente 24,2% chegaram ao patamar considerado adequado. A deficiência é ainda maior em Matemática, justamente a disciplina em que mais faltam professores e em que os alunos mais precisam avançar. No país, apenas 45% dos licenciados em Matemática alcançaram a proficiência exigida para a docência, e no Espírito Santo o índice cai ainda mais, para 43,88%.
No conjunto das áreas, o Espírito Santo supera por pouco a média nacional, com 65,78% de proficientes, o que coloca o estado em 11º entre as 27 unidades da federação. Mas essa média também esconde realidades muito desiguais. Vitória teve o melhor desempenho do estado, com 75,8% dos candidatos no mínimo de proficiência, bastante à frente da média estadual e nacional. Porém, para a maior parte dos municípios capixabas, a proficiência é sensivelmente menor.
Diante de uma formação tão desigual, a inteligência artificial não resolve o problema, amplia. Um professor bem formado usa a tecnologia como alavanca, enriquece a aula e personaliza o ensino. Um professor com lacunas terceiriza o próprio pensamento para a máquina e perde a capacidade de corrigi-la quando ela erra. A ferramenta não nivela essa diferença, ela a acentua, premiando quem já chega preparado.
E a prova é apenas a fotografia do instante em que a formação inicial termina. Ensinar, porém, é ofício que se constrói ao longo de décadas, ainda mais quando as ferramentas mudam a cada ano. Por isso, a formação continuada deixou de ser um complemento desejável e virou condição de sobrevivência profissional. Avaliar o professor uma vez, no início, e abandoná-lo depois é tratar como evento o que precisa ser percurso.
Cobramos da escola que prepare nossos filhos para o futuro, mas e a educação dos educadores? Para melhorar o aprendizado dos alunos, precisamos começar por seus professores. Investir na formação docente, inicial e continuada, sobretudo nos territórios mais frágeis, não é temor diante da tecnologia, e sim o passo mais concreto rumo a uma educação melhor para todos.




