Memória, instituições e eleições na era da IA

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Por Rimaldo de Sá*

No dia 1º de janeiro de 2000, a grande piada era que o pânico sobre o Bug do Milênio tinha sido um grande desperdício de tempo e bilhões de dólares. A falha no formato de data que trocava o ano 2000 por 1900 e poderia até derrubar aviões não causou grandes problemas. Pois é. Mas não aconteceu exatamente porque o mundo se uniu e trabalhou junto.

O mesmo raciocínio vale para a camada de ozônio. O problema foi documentado, medido, comprovado. O Protocolo de Montreal reuniu nações, regulou indústrias, alterou cadeias produtivas. O buraco parou de crescer. Hoje, poucos lembram do que estava em jogo. Menos ainda compreendem que a solução não foi o acaso, foi a cooperação deliberada.

Se não houver trabalho permanente de memória, o trabalho coletivo que supera interesses individuais tende a desaparecer. No Espírito Santo, estamos diante desse risco.

É preocupante que os jovens da geração Z não saibam que este Estado foi literalmente governado pelo crime organizado antes dos anos 2000. Não sabem o tamanho da crise institucional que nos rebaixou aos piores índices de desenvolvimento e segurança do Brasil. E o esforço monumental que exigiu a união de todos os setores da sociedade para organizar a casa.

O Espírito Santo em Ação, organização criada em 2003 por empresários capixabas na esteira daquela crise, nasceu também para não permitir esse esquecimento.

O problema é que o ser humano tem dificuldade intrínseca de compreender curvas exponenciais. Durante décadas, discutimos tecnologia. Mas a variável que importa é comportamental: o que a tecnologia altera no comportamento humano. Os futuristas dos anos 1940 acertaram muitas previsões tecnológicas para 2020, mas falharam ao tentar imaginar o comportamento do homem de 2026 diante de todos esses avanços.

O que conseguimos ver é que há muita informação e pouco saber. O conhecimento de qualidade, que realmente importa e muda a vida das pessoas, está perdido no lixo a que todos somos expostos diariamente. E depois da IA, isso só fica infinitamente pior. Há quem profetize até o fim da internet, inutilizada pelo “slop” (lavagem para porcos, em inglês) feita com Inteligência Artificial.

O cenário eleitoral de 2026 será um ponto crítico de inflexão. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está correndo atrás de coibir o uso de vídeos de IA nas eleições, mas sabemos que enquanto as instituições sobem de escada, a realidade sobe de elevador.

A pesquisa Panorama Político aponta que 81% dos brasileiros acreditam que notícias falsas podem afetar resultados eleitorais e metade dos usuários de WhatsApp já utilizou recursos de IA no aplicativo. O dado mais alarmante é que esta pesquisa foi feita no distante ano de 2024. Hoje, os resultados seriam muito piores.

Alguns deixam a política por não suportarem a pressão digital. Um calejado profissional do marketing político abandonou o trabalho em campanhas por perceber que ultimamente elas focam menos na discussão de propostas e mais nos ataques e assassinatos de reputação.

A crise está posta e, assim como no início dos anos 2000, as instituições precisam se unir e agir para evitar que retornemos ao caos institucional. Cabe à sociedade civil organizada cobrar dos candidatos e suas campanhas que haja debate real sobre desafios e propostas, problemas e soluções, visão de futuro e planejamento.

As mesas de negociação devem estar abertas a todos que desejam colaborar para reconfigurar as prioridades em um ano decisivo para o futuro do Espírito Santo. Cabe aos capixabas e às instituições que prezam pelo bom ambiente institucional do Estado não permitir que a história seja reescrita com ajuda de Inteligência Artificial e algoritmos que priorizam a discórdia em vez da discussão de ideias.

Aqueles que conhecem a realidade do que vivemos quase três décadas atrás têm o dever de alertar, como quem enxerga o que outros ainda não perceberam. Nosso compromisso deve ser com o futuro do Espírito Santo.

*CEO da Beta Rede e mantenedor do ES em Ação