Valcemiro Nossa*
O Brasil chegou a 2025 com desemprego baixo e maior dificuldade de contratação. A PNAD Contínua apontou taxa média anual de desocupação de 5,6%, a menor desde 2012, reduzindo o número de pessoas disponíveis para novas vagas. Além da escassez relativa de trabalhadores, há um descompasso entre as competências ofertadas e as exigidas pelo mercado. Na indústria, 62% das empresas relatam dificuldade para contratar mão de obra qualificada, segundo a CNI, e o SENAI estima que o país precisará qualificar cerca de 9,4 milhões de pessoas até 2028. No Espírito Santo, a construção civil destaca a falta e o alto custo da mão de obra, inclusive não qualificada.
Os setores mais pressionados combinam crescimento da demanda, maior exigência técnica e trabalho presencial com alta rotatividade. Construção, indústria, logística, saúde e tecnologia concentram os maiores riscos. As causas são estruturais: desaceleração da população em idade ativa; sistema educacional que responde lentamente ao mercado; baixa atratividade de ocupações operacionais; e mudança no perfil dos jovens, que priorizam flexibilidade e autonomia.
Sob a ótica do livre mercado, a escassez é um sinal econômico: preços, incentivos e formação ainda não se ajustaram às novas condições produtivas. A resposta não é controlar artificialmente a oferta de trabalho, mas criar ambientes favoráveis à produtividade, mobilidade profissional e investimento privado em qualificação. Isso exige uma mudança estrutural: escolas, empresas e poder público precisam atuar como um ecossistema integrado de formação de talentos.
Essa lógica dialoga diretamente com o Plano ES 500 Anos. A Missão 2 – Polo de Competências reforça que a formação precisa estar conectada às demandas reais dos setores produtivos. A Missão 1 – Economia diversificada, inovadora e sustentável destaca que ganhos de produtividade dependem de inovação, tecnologia e qualificação contínua, com maior protagonismo das empresas na formação de competências estratégicas. Já a Missão 5 – ES Ágil e Inteligente aponta para um ambiente institucional mais moderno e digital, capaz de facilitar essa integração e reduzir barreiras entre formação educacional e demanda econômica.
Na prática, esse movimento já avança, com empresas ampliando investimentos na formação interna de talentos, no desenvolvimento de jovens lideranças e na criação de trilhas de carreira alinhadas às necessidades de cada setor produtivo.
Do ponto de vista econômico, trata-se de um descompasso de competências. Para o mercado, o efeito é direto: projetos atrasam, custos sobem e investimentos são adiados. O ES 500 Anos propõe enfrentar esse risco de forma sistêmica: formar melhor, produzir com mais tecnologia e reorganizar o trabalho. A escassez de mão de obra é um alerta. Sem capital humano alinhado à estratégia produtiva, o crescimento encontra limite não por falta de capital, mas por falta de pessoas certas, nos lugares certos, com as habilidades certas.
*Presidente da Fundação Fucape e Membro do Conselho de Lideranças do ES 500
