A Lei da Selva e seus impactos no Espírito Santo

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Gunther Rudzit*

Vivemos um momento em que o sistema internacional parece regredir ao velho instinto de sobrevivência: a lei da selva. Poder militar, econômica e diplomática volta a se sobrepor a normas coletivas e multilateralismo. Isso impacta diretamente o Brasil — e com especial intensidade o Espírito Santo, pela alta exposição da sua economia ao comércio global.

No plano global, as tensões entre grandes potências redefinem cadeias produtivas, rotas de energia e segurança internacional. A multipolaridade conflituosa leva à volatilidade nos mercados de commodities, nas tarifas e nas cotações de câmbio. Em um ambiente de guerra comercial, sanções e “reconstrução de blocos”, quem depende das exportações corre riscos maiores — e o ES é um bom exemplo disso.

No Espírito Santo, essa vulnerabilidade internacional é concreta. Em 2024, o grau de abertura da economia capixaba alcançou 64,3 % — mais de duas vezes a média nacional (≈ 27,6 %). Isso significa que quase dois terços do seu PIB bruto estão atrelados ao comércio exterior — em exportações de minério de ferro, café, celulose, aço e energia — ou à importação de insumos e máquinas. Quando a “lei da selva” global se impõe, oscilações externas reverberam rapidamente no cotidiano e nas contas dos capixabas.

Além disso, o ES tem participação relevante em produtos sensíveis a disputas geopolíticas: petróleo, gás, minério. Qualquer disrupção no transporte global, crises em rotas marítimas ou flutuação de preços internacionais tende a afetar diretamente o setor produtivo e a arrecadação estadual.

Para o Brasil, o quadro exige realismo estratégico: depender de demanda externa ou de preços voláteis torna a economia vulnerável. É hora de diversificar mercados, investir em agregação de valor, ampliar a base interna de consumo e fortalecer cadeias produtivas com tecnologia e sustentabilidade.

Para o Espírito Santo, a tarefa é ainda mais urgente: consolidar infraestrutura logística, desenvolver a indústria local além das commodities, apoiar inovação, e construir uma base econômica que resista às turbulências externas. A cooperação entre Estado, empresas e sociedade — típica de economias bem-sucedidas — pode funcionar como escudo contra o caos internacional.

Em resumo: a “lei da selva” internacional já está aí — mas o Brasil e o Espírito Santo não precisam ser vítimas passivas. Com estratégia, responsabilidade e visão de longo prazo, ainda é possível transformar vulnerabilidade em oportunidade.

* Gunther Rudzit é professor de Relações Internacionais na ESPM. Doutor em Ciência Política (ou Segurança Internacional) pela Universidade de São Paulo (USP).