“Queremos jogar luz num Brasil que é empreendedor e dá certo”

Considerado hoje o principal hub de inovação do País, o BrazilLAB já ajudou no processo de desenvolvimento de 55 startups, fazendo a conexão de empresas de base tecnológica ao poder público. Número que parecia impensável, há três anos, como admite o diretor-jurídico da organização, Guilherme Dominguez.

“Quando dizíamos a pessoas próximas que tínhamos o interesse em levar inovações a órgãos públicos, muitos nos desestimularam. Era algo considerado muito arriscado. Estávamos em pleno olho do furacão da Operação Lava-Jato, em meio ao processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Mas insistimos, porque queríamos sair de uma agenda negativa e criar uma pauta positiva voltada ao poder público”, conta Dominguez, advogado formado pela PUC, de São Paulo.

Durante participação no workshop “Inovação na Gestão Pública: Conectando Startups e Governo”, realizado no dia 16, no auditório do Espírito Santo em Ação, Dominguez contou como foi o trajeto percorrido pelo BrazilLAB, falou sobre os resultados alcançados e apontou a importância cada vez maior de os governos federal, estadual e municipal buscarem soluções inovadoras no dia a dia, para facilitar a vida dos cidadãos.

MOTIVAÇÃO
“A ideia de criar o BrazilLAB partiu do impulso de promover uma transformação digital e da necessidade que a gente identificava de fazer uma aproximação entre empreendedores e governo. Vem do conceito de gov techs, empresas que desenvolvem estratégias especificamente para soluções no serviço público, o que seria, em inglês, B2G (Business to government)”.

OBJETIVO
“Queríamos sair de uma agenda negativa, em uma época na qual a Operação Lava-Jato dominava o noticiário, e criar uma pauta positiva voltada ao poder público. Jogar luz num Brasil que já dava certo. Um Brasil empreendedor, tecnológico, que quer transformar a realidade das pessoas para melhor”.

HUB DE INOVAÇÃO
“A gente fala que o BrazilLAB é um hub de inovação. Mas o que é um hub? O hub é um conector. A gente gosta de conectar os empreendedores que estão querendo promover transformação digital com os governos que estão abertos à inovação”.

COMO ATUAM
“Temos duas formas de atuação. Primeiro, temos um programa de aceleração, para o qual fazemos chamadas públicas e recebemos inscrições. Já realizamos três turmas e conseguimos acelerar 55 startups. Fazemos uma qualificação dessas empresas, para que saibam como formatar os produtos delas para poderem ser fornecidos ao governo. Também ensinamos como montar uma estratégia para que o produto delas gere impacto no governo. As seis melhores startups do nosso programa vão para um evento final, que chamamos de DemoDay, de onde saem três vencedoras. Essas três vencedoras ganham a possibilidade de implantar a solução delas, de forma gratuita, como um piloto, para as prefeituras que são parceiras da nossa rede”.

RESULTADOS
“Ao longo de três anos de programa, tivemos mais de 650 inscritos. Quando começamos, só uma das startups já havia tido relações com governo. Na última turma, mais da metade das startups selecionadas já tinha estratégias voltadas ao poder público. Isso mostra como esse ecossistema de gov techs foi ganhando robustez. Em três anos, já tivemos 55 startups aceleradas, com 14 soluções que estão rodando em diferentes estados e municípios”.

EXEMPLOS DE SOLUÇÕES
“No primeiro ano, quem ganhou a nossa premiação foi a SO+MA. É um programa no qual a pessoa ganha pontos ao entregar lixo reciclável em pontos de coleta. Depois, é possível trocar esses pontos por produtos, cesta básica, um livro ou até um curso de inglês. Trata-se de uma solução que gera engajamento, principalmente de população de baixa renda, para a coleta seletiva. Mas também tivemos outras soluções desenvolvidas por startups. É o caso do Linte, que facilita a gestão de documentos internos por órgãos públicos, criando modelos para serem utilizados em casos de licitação, por exemplo. Outra iniciativa legal é o Gesuas, uma plataforma que faz a gestão das informações necessárias para o atendimento à população no Sistema Único de Assistência Social (Suas), que trata desde a dependência química e o alcoolismo até o acolhimento a moradores de rua”.

VANTAGENS DE LIDAR COM O GOVERNO
“O governo tem três verticais que são muito importantes. O primeiro é o impacto: o número de pessoas que pode ser alcançada por soluções desenvolvidas para órgãos públicos. O segundo aspecto é que o governo tem a necessidade de melhorar a eficiência, porque os recursos sempre são escassos. E, por fim, vem a escala: uma solução pode começar pequena, em um único órgão e, depois, ser compartilhada por toda a rede pública”.

MUDANÇA CULTURAL
“É preciso fazer com que a interação com o governo se torne uma coisa positiva. Acabar com aquela ideia de que lidar com um órgão público é ter aborrecimento. As formas de interação têm de ser por qualquer canal, acabar com a história de guichês. A pessoa quer ter o governo na palma da mão. Você consegue fazer pedido de qualquer restaurante por aplicativos. Por que não consegue fazer o mesmo com o serviço público, pelo celular?”

COMO O BRAZILLAB SE VIABILIZA
“No início, demos um prêmio de US$ 5 mil para o vencedor do prêmio e tínhamos R$ 180 mil para rodar todo o programa de aceleração. Contamos, naquela época, com uma rede de voluntários gigantesca. A maioria dos mentores que atuou junto às startups não recebeu nada para participar do programa. Apenas acreditaram na causa. Os dois primeiros prefeitos que aceitaram participar eram amigos meus. Mas tivemos apoio de dois institutos para fazer o investimento que nos permitiu começar o programa. Hoje já temos uma rede de parceiros muito maior, além de organizações do terceiro setor, que a gente conseguiu conectar.”

LEI DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
“O Brasil já tinha a lei 10.793, de 2004. Mas, como acontece várias vezes, essa lei não atingiu os objetivos que dela se esperava. Em janeiro de 2016, então, essa legislação foi toda reconfigurada, por meio da lei 13.243, criando novas formas de fomento à inovação, para estimular esse ambiente entre o setor produtivo e o setor público. A grande novidade da lei é que o poder público pode se tornar sócio minoritário de startups e condicionar sua participação ao licenciamento de alguma propriedade intelectual que essa empresa desenvolva, de forma gratuita. Vamos supor que a administração municipal queira ser sócia de uma empresa que vai desenvolver uma vacina para combater a chikungunyua. Depois, é possível condicionar que esse produto seja fornecido de forma gratuita ou com um preço reduzido a um órgão público”.

PAPEL POLÍTICO
“Nosso programa é apolítico e apartidário. Estamos à disposição de qualquer prefeitura que queira conhecer as soluções. Como disse, nosso papel é fazer a conexão das empresas de tecnologia, que nunca tiveram muito foco no governo, com os órgãos públicos, que têm uma rotina muito puxada e exigente, o que dificulta a busca por inovação”.