Gianturco: “Não precisamos de um homem forte, precisamos de paredes\instituições contra homens fortes”

Adriano Gianturco é cientista político, italiano e vive no Brasil há oito anos. Conhece os males do populismo, defende as instituições, garante que a corrupção não é a principal dor do País. E vai além! Segundo ele, que esteve no Espírito Santo participando de um evento do Instituto Líderes do Amanhã, as pessoas falam muito de ética, e a associam à política, “mas ética não é algo a ser falar, é algo a praticar. Quando se fala muito pode ter certeza que é porque não se pratica”.

Na entrevista abaixo, concedida à equipe de comunicação do Espírito Santo em Ação, Gianturco compartilha outras ideias e ideais. Confira!

Gianturco, você defende que precisamos de instituições e regras. Mas, culturalmente, sempre falamos em salvador da Pátria. Acredita que o brasileiro esteja maduro o suficiente para entender essa “nova” regra do jogo ou ainda devemos sofrer mais alguns anos, décadas até, até o povo entender essa dinâmica?

ADRIANO GIANTURCO – Não é uma questão cultural. Trump, Putin, Berlusconi, Erdogan, Duterte e vários outros líderes carismáticos mostram que acontece o mesmo em outros países também. Weber já explicou este fenômeno falando do “poder tradicional” e do “poder carismático”. E isso é normal. Em política o carisma importa ainda mais visto que os resultados concretos não são objetivamente mensuráveis (diferentemente de uma empresa, por exemplo) e visto que a política é tribal e não “racional”. O ser humano é um animal gregário, reconhece\elege um “homem alpha” e o segue. Normalíssimo.

O brasileiro estar maduro ou não para esse novo processo, não significa nada. O brasileiro não existe. Existem 200 milhões de brasileiros diferentes. Existe o plural. Essa forma errada de falar corrói o pensamento, pois já foi demonstrado que nós pensamos como falamos (e não o contrário). Alguns brasileiros são politicamente mais maduros e outros menos.

O brasileiro já elegeu a corrupção como a maior dor do País, seu maior problema. Essa percepção do povo condiz com a realidade?

Não! Está objetivamente errada. É um mito.

Segundo a Fiesp, segundo o relatório Brazil – Investment and Business Guide e segundo as revistas Latin Trade e Forbes, o impacto da corrupção na economia brasileira varia entre R$ 41,5 e R$ 69,1 bilhões por ano. Ou seja, entre 1,38% e 2,3% do PIB (esses dados se referem a 2010).

Segundo um estudo da FGV, em consequência das descobertas da Operação Lava-Jato, a economia brasileira deixou de produzir R$ 87 bilhões em 2015, similar aos percentuais dos relatórios acima. A corrupção tem um efeito simbólico muito forte e toca a moralidade de todos nós, mas as boas análises são aquelas racionais, analíticas e científicas, e não as emotivas.

O economista Samuel Pessoa pensa o mesmo. Ele diz: “Mas o custo da corrupção é muito menor do que o que as pessoas imaginam. O combate à corrupção, embora melhore o País, não fará aparecer recursos vultosos do Tesouro Nacional. O Estado brasileiro está mal dimensionado. Arrecada menos do que gasta. E não porque está crescendo menos. Arrecada menos do que gasta por um problema estrutural, que gerou expectativas ruins, que geraram crescimento econômico baixo. O nó brasileiro hoje é o Estado”.

O famoso economista Gordon Tullock ajuda a explicar isso ao mostrar que geralmente se consegue um grande favor de um político/burocrata em troca de uma propina relativamente pequena. Ou seja, levando-se em conta a grande recompensa, a corrupção podia até ser maior. Mas não é maior porque: A concorrência entre os burocratas reduz o preço das propinas cobradas; Há uma falta de confiança entre corrupto e corruptor, os quais, obviamente, não podem processar a outra parte em caso de desrespeito do acordo; E há a pressão da opinião pública.

Mas o que são os 2,3% do PIB perdidos pela corrupção? Apenas os repasses do Tesouro para o BNDES – operação esta que utiliza o dinheiro de impostos dos brasileiros para privilegiar os empresários favoritos do governo – chegam a 9% do PIB. Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal (e as pedaladas) e as mais de 200 empresas estatais custam muito mais.

Redistribuição regressiva, guerra às drogas, violência, intervencionismo, censura (politicamente correto, marco civil, etc.), qualidade do ensino e da saúde estatal, saneamento básico, ineficiência do judiciário e exclusão comercial dos pobres (pelo protecionismo) são apenas alguns dentre problemas muito maiores.

Mesmo que a percepção do brasileiro com relação à corrupção não seja verdadeira, o fato é que a corrupção precisa ser combatida. Na sua opinião, qual a melhor forma de fazer isso?

Não há alternativas, tem que agir na raiz (e não no sintoma). Tem que diminuir o poder político, a centralização do poder, a arbitrariedade, a margem de discricionariedade. Tem que liberalizar, privatizar, desregular, desburocratizar.

Fala-se muito de ética, hoje em dia, no Brasil. Mas você acredita que a solução para os problemas do País passem por ética e moral? Caso defenda outra saída, fale um pouco sobre elas, por favor!

Todo mundo repete as mesmas coisas idênticas. Política e ética têm nada a ver. Machiavel já mostrou isso. Esperar ética da política é impossível e você fica dependente da pessoa boa. Se for boa, tudo bem. Se for má, vai ser muito ruim para todos. No mercado nós não dependemos de comerciantes bons, mas a concorrência os incentiva a se comportar bem e nos dar melhores produtos em termos de qualidade\preço. Todo mundo sabe disso, mas em política viramos estúpidos. Friedman falava que eleger pessoas boazinhas é legal, mas é melhor ter um sistema que force até as pessoas erradas a fazerem o bem. Popper (Karl Popper, filósofo) já falou que não precisamos de um homem forte, precisamos de paredes\instituições contra homens fortes.

Gianturco, o Brasil está diante de um momento-chave de sua história com as Eleições deste ano. Qual a sua expectativa para o processo eleitoral? É possível sonhar com alguma boa e nova liderança?

Sonhar? Sonhar é coisa de criança. É ridículo! Sonhar em política é em dobro. Eu não sonho nem à noite. Coitado daquele sujeito que deseja e precisa de líderes.

Para terminar… Na sua opinião, qual deve ser o papel do Estado (leia-se poder público) no todo – ou seja, economia, saúde, educação, infraestrutura? Qual deve ser o tamanho dessa interferência? 

O papel da coerção deve ser o menor possível.