Especialistas discutem caminhos para modernizar o Ensino Médio e a educação no Brasil

Professores, pedagogos, gestores e outros profissionais da Educação estiveram reunidos, na terça-feira (dia 21), no Centro de Eventos e Treinamentos (CET) da Rede Gazeta, em Vitória, para debater a modernização do ensino no Brasil, durante o painel “Ensino Médio e o Futuro do Trabalho”. Foram discutidos o cenário da aprendizagem no País e as estratégias para conectar as práticas educacionais às mudanças que ocorrem no mundo, sobretudo do ponto de vista tecnológico, de forma a preparar o aluno para as necessidades do mercado de trabalho.

Realizado pelo Núcleo de Educação do Espírito Santo em Ação, o evento contou com quatro debatedores: a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (CEIPE) da FGV, Claudia Costin, o secretário de Estado da Educação, Vitor de Angelo, o diretor geral da Faesa, Alexandre Nunes Theodoro, e o diretor de Tecnologia e Inovação do Grupo Águia Branca, Janc Aguiar.

Os especialistas apontaram uma série de desafios que o País precisa enfrentar para a melhoria da aprendizagem. Levantamento do Ministério da Educação aponta que, entre os jovens que concluem o Ensino Médio no País, só 21,9% aprendem Português em um nível suficiente. Em Matemática a situação é ainda pior: apenas 3,6% têm aprendizagem adequada.

Os números do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) também não são favoráveis. Entre 70 países avaliados, o Brasil ocupa o 63º lugar em aprendizagem de Ciências por jovens de até 15 anos. Em Leitura, o País está em 59º e em Matemática, em 66º.

Em meio a isso, o Brasil firmou um pacto, durante o Fórum Mundial de Educação, realizado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), em Incheon (Coreia do Sul), em 2015. A meta central do Marco de Ação da Educação 2030 é promover uma educação de qualidade, inclusiva e igualitária ao longo de toda a vida para todos.

“Isso significa que até 2030, todos os meninos e meninas terão de completar a educação primária e secundária no Brasil. Se hoje, de 100 crianças que entram no Ensino Fundamental, 59 completam o Ensino Médio, em 2030, todas as 100 crianças precisarão terminar a educação básica”, alerta Claudia Costin. “Além disso, o ensino deverá ser livre, inclusivo, equitativo e relevante, ou seja, conforme aquilo que a sociedade necessita, inclusive o mercado de trabalho”.

O caminho para isso passa por uma série de desafios. A começar pela formação dos professores, que segundo Claudia está desconectada da realidade. “A formação de professores na universidade é excessivamente divorciada do chão da escola. É muito teórica e tem pouca conexão com a prática”, adverte a diretora da FGV. “Ser professor não é para amadores. Não basta entender da área de ensino. É preciso entender da profissão, saber dar aulas e ter repertório variado”.

Qualidades ainda mais necessárias para se adaptar às mudanças previstas com a adoção do novo Ensino Médio, assunto que também foi comentado pelos participantes do painel. Entre as alterações previstas, está definido que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) fará parte de 60% das matérias estudadas em sala de aula. O restante ficará reservado para uma das áreas específicas, com o aluno podendo escolher em qual delas vai se aprofundar: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas/Sociais e Formação Técnica/Profissional.

“A flexibilização dos currículos é um dos grandes avanços do novo Ensino Médio. Assim, o aluno pode aprender a pensar cientificamente, matematicamente, historicamente. Associar competências socioemocionais às cognitivas”, destacou Claudia.

Tal protagonismo deve ser estendido ao pensar. A diretora da FGV lembrou que o mercado de trabalho, atualmente, busca profissionais focados em resolução de problemas com criatividade. “Estamos vivenciando a quarta revolução industrial. O mundo inteiro está extinguindo postos de trabalho, inclusive em áreas que exigem competência cognitiva. A inteligência artificial não demanda mais uma estrutura de gerência tão sofisticada. Isso vai afetar a forma de ensino”, afirmou.

Tal transformação obriga a escola a deixar de ser um lugar para decorar o pensamento do professor e a se tornar um espaço para preparar alunos com espírito empreendedor, focando no aprimoramento de talentos individuais.

“O aluno deve se tornar empreendedor da sua vida escolar e saber que é portador de um sonho. Caberá ao professor ajudá-lo a ter autonomia para levar seus planos adiante. Se for criado para a dependência, o estudante nunca será protagonista da própria vida”, observa Claudia. “Só se constrói um país a partir do projeto de vida das pessoas”.

Hora de transformar

A possibilidade de transformação aberta pelo novo Ensino Médio é vista como uma oportunidade pelo secretário de Estado de Educação. Mas, antes de adotar qualquer mudança nas escolas capixabas, Vitor de Angelo pretende ouvir os principais interessados nelas: os alunos.

“O novo Ensino Médio é uma grande oportunidade. É como uma tela em branco, em que cabe qualquer coisa. Mas é importante saber por onde iniciar. Como cada estado tem a liberdade de montar a sua arquitetura de ensino, se não houver cuidado e organização, há o risco de se perder no caminho”, observou o secretário. “No Espírito Santo, estamos indo atrás dos alunos para entender as aspirações deles. Não podemos pensar em mudanças sem saber o que a comunidade escolar quer”.

Com uma melhor formação no Ensino Médio, aumentam as chances de que esses alunos cheguem mais preparados ao Ensino Superior, que também precisa passar por mudanças, na visão do diretor geral da Faesa, Alexandre Nunes Theodoro.

“É preciso repensar o Ensino Superior como um todo, seja privado ou público. Tem de haver diálogo com o Ministério da Educação, com o setor produtivo e com a sociedade. Devemos atuar onde a indústria 4.0 não atua: na formação do aluno, no desenvolvimento de competências, de forma a fazê-lo aprender a aprender, garantindo conhecimento com capacidade de entendimento”, aponta Alexandre.

Do ponto de vista do mercado de trabalho, há a percepção de avanços na formação. Ainda que seja necessário aprimorar a habilidade de alguns profissionais, como salientou Janc Aguiar, do Grupo Águia Branca.

“Não consigo perceber que há um empobrecimento do capital humano que chega à empresa. Sou otimista por natureza. Percebo que temos evoluído. O Brasil tem avançado, e os desafios naturalmente vão se tornando maiores. Mesmo que alguns profissionais apresentem uma formação mais frágil, a gente tem o compromisso de fazê-lo render e apresentar um bom desempenho”, ressaltou.

Para o diretor-presidente do Espírito Santo em Ação, Luiz Wagner Chieppe, o debate serviu como um bom momento de reflexão sobre os desafios da educação no Brasil. “É o momento de refletir, olhar para a frente e ter a certeza de que podemos melhorar muito, principalmente com o apoio de toda a sociedade”, disse.

À frente do Núcleo de Educação do Espírito Santo em Ação, Luciano Gollner destacou que a história da instituição com essa área vem desde a fundação, em 2003. E envolve parcerias como a implantação de modelos de escola em tempo integral e o Pacto pela Aprendizagem no Espírito Santo (Paes).

“Diante de tantas iniciativas, entendemos que era importante dar mais estrutura ao tema dentro do Espírito Santo em Ação. Daí surgiu a ideia de criarmos o Núcleo de Educação, com uma estrutura e governança próprias, mantendo a ligação com a instituição, com o foco no desenvolvimento de novos projetos nessa área”, frisou Luciano.

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